Depressão pós-parto: entenda o que é e como tratar

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Ainda rodeada de mitos e vergonha, a depressão pós-parto afeta várias mães, mas poucas buscam ajuda

O nascimento do bebê e seus primeiros meses costumam ser retratados como momentos de alegria e plenitude para as mães. Contudo, nem todas as mulheres se sentem assim. Alterações de humor, crises de choro, ansiedade, tristeza e até desinteresse pelo filho podem surgir nessa fase e são alguns dos sintomas da depressão pós-parto.

Esse quadro é vivido por muitas mulheres no puerpério (período de até 60 dias após o nascimento do bebê) e antes mesmo do parto. Contudo, são poucas as que buscam ajuda.

Para desmistificar a depressão pós-parto, conversamos com o médico psiquiatra Sávio Teixeira. Ele explicou mais sobre o que é doenças, o que pode causá-la e quais são os tratamentos disponíveis.

Leia a entrevista abaixo:

O que é depressão pós-parto?

Depressão pós-parto é um transtorno psiquiátrico do humor que ocorre no período próximo ao parto. Antigamente, considerávamos para diagnóstico apenas os quadros que se iniciavam após o parto. Porém, hoje em dia, a recomendação é que sejam incluídas também as condições que ocorram no último mês de gravidez, formando um diagnóstico mais moderno e completo, denominado Depressão Peri-parto. Esse transtorno psiquiátrico ocorre em até 20% das mulheres, apesar de ser diagnosticado em apenas um terço delas.

Quais sintomas da depressão pós-parto?

A depressão pós-parto pode existir com grande variedade de sintomas, dependendo da gravidade e apresentação do quadro. Os mais comuns são tristeza e angústia proeminentes, alterações de sono e apetite, baixa energia, falta de motivação e prazer nas atividades, inclusive nos cuidados com o bebê e consigo mesma. O famoso “instinto materno” pode estar prejudicado em alguns casos, cursando inclusive com falta de afeto ou até incômodo com relação ao filho. Enquanto isso, quadros mais graves podem aparecer com sintomas psicóticos e pensamentos suicidas.  

Existem fatores que predispõem a manifestação da depressão pós-parto?

O mecanismo e as causas exatas da depressão pós-parto ainda são desconhecidos. Todavia, sabemos que alguns fatores podem predispor o quadro. De forma geral, dividimos tais fatores em biológicos (alterações hormonais, presença de doenças crônicas, baixo peso ou obesidade, alterações genéticas etc), psicológicos/psiquiátricos (presença de transtorno psiquiátrico prévio, estressores vitais graves durante a vida, situação matrimonial delicada, pobre estrutura familiar, histórico de abuso sexual ou físico e histórico de disforia pré-menstrual, entre outros), socioeconômicos (dificuldade financeira e desemprego) e obstétricos (gravidez indesejada, gravidez e partos complicados, problemas envolvendo o bebê etc). Vale lembrar que os fatores de risco nos dão uma base para estratificação de risco, mas não conseguem prever a ocorrência do transtorno.  

A mamãe pode apresentar indícios de que irá desenvolver depressão pós-parto durante o período gestacional?

Sim, as mães podem apresentar alguns indícios de que poderão desenvolver a depressão pós-parto ainda durante a gestação. Alterações significativas de humor, reações exacerbadas ao estresse, alterações exageradas de sono e anomalias no vínculo mãe-bebê durante a gestação podem significar sinais de alerta.  Além disso, a presença de fatores de risco (citados anteriormente) servem de guia para a estratificação de risco. O ideal é que gestantes com médio e alto risco iniciem acompanhamento psicológico e psiquiátrico ainda durante a gravidez.

Depressão pós-parto - médico psiquiatra Sávio Teixeira
Médico psiquiatra Sávio Teixeira

Qual o tratamento para depressão pós-parto?

O tratamento se pauta em psicoterapia e utilização de medicamentos antidepressivos. A escolha terapêutica sempre deve ocorrer após avaliação criteriosa de um psiquiatra.

Existe alguma forma de prevenir a depressão pós-parto?

Para pensarmos em prevenção, devemos pensar em eliminar ou minimizar possíveis fatores de risco para a depressão pós-parto. Assim, manter um bom controle de estressores psicológicos com psicoterapia, meditação e práticas de manejo da ansiedade se fazem extremamente importantes. É sempre relevante manter a harmonia das relações interpessoais e cuidar da saúde como um todo. Além disso, deve-se praticar exercícios físicos regulares, controlar o peso e manter uma alimentação balanceada.

Segundo pesquisa realizada na Universidade de Auckland, na Nova Zelândia homens também podem desenvolver depressão pós-parto. Quais seriam os motivos para isso?  

Apesar de muito menos comum do que em mulheres, a depressão pós-parto também ocorre nos homens. Enquanto nas mulheres existe uma infinidade de motivos (inclusive hormonais), nos homens são proeminentes os fatores psicológicos envolvendo a paternidade, a relação com a mãe do bebê e a nova configuração familiar, entre outros.

O tipo de parto, se é normal, cesárea ou humanizado, pode influenciar na manifestação da depressão pós-parto?  

Os estudos que relacionam a forma do parto com a ocorrência de depressão pós-parto ainda são, em sua maioria, inconclusivos. Vale ressaltar que o tipo de parto é uma escolha dos pais e, ainda, uma escolha obstétrica, devendo sempre privilegiar as saúdes da mãe e do bebê. O mais importante é que a via de parto seja um assunto bem estabelecido entre os pais e o médico assistente e que seja a mais segura possível diante das condições apresentadas.  

Poderia citar algum dado estatístico sobre a depressão pós-parto no Brasil?  

Os dados estatísticos brasileiros estão alinhados com os dados mundiais, pesquisas apontam uma prevalência de 8 a 18%, dependendo muito das ferramentas utilizadas. A maior parte dos casos se deflagra até o terceiro mês após o parto e tem boa resposta ao tratamento.  

Recentemente foi aprovado nos EUA, o primeiro remédio para depressão pós-parto, a brexanolona. Quais são as expectativas em relação a esse medicamento?

A brexanolona promete uma resposta muito rápida nos sintomas depressivos quando comparada a outros fármacos. Isso é importante quando pensamos que a depressão no pós-parto pode causar prejuízos para a mãe e o bebê recém-nascido. Existem algumas restrições importantes, como a administração em via endovenosa (deve ser feita em ambiente hospitalar) e o alto custo. As expectativas são boas, mas existe a necessidade de aguardarmos estudos robustos e isentos sobre a droga para poder falar melhor sobre o remédio como opção de tratamento.

Conheça mais sobre a atuação do Dr. Sávio Teixeira:

E-mail: contato@drsavioteixeira.com | Instagram: @savioteixeira Médico psiquiatra (CRM-GO 19338 / RQE 12137) graduado pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Estágio em transtorno depressivo e suicídio no Douglas Mental Health University Institute, em Montreal, Quebec, Canadá. Psiquiatra do Subsistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor da UFG (Siass-UFG) e do Centro Estadual de Referência e Excelência em Dependência Química (Credeq).

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